
Resenhas Cinematográficas
Aqui você encontrará na seguinte ordem:
-"Hotel Ruanda-Para não ignorar mais"
-"Fica Comigo Esta Noite - Um novo jeito de rir"
- Direção: Terry George
- Origem: África do Sul/Canadá/Reino Unido/Itália
- Gênero: Drama
- Duração: 121 minutos
- Premiações: Recebeu 3 indicações ao Oscar, nas categorias de Melhor Ator (Don Cheadle), Melhor Atriz Coadjuvante (Sophie Okonedo) e Melhor Roteiro Original. Recebeu 3 indicações ao Globo de Ouro, nas categorias de Melhor Filme - Drama, Melhor Ator - Drama e Melhor Canção Original ("Million Voices"). Ganhou o Prêmio do Público, no Festival de Toronto e no AFI Festival.

Dez anos depois do ocorrido, retrata-se, pela primeira vez, um episódio ignorado pelas potências e pela imprensa: o massacre de Ruanda. Em 1994, em só três meses, mais de um milhão de pessoas foram mortas por conta da discriminação entre as etnias tutsis e hutus da região. O conflito é histórico, tem raízes tribais e raízes provocadas pela forma que a Bélgica colonizou a região de forma indireta: privilegiou os tutsis e deu, depois, o poder aos hutus. O filme Hotel Ruanda não podia vir em um momento melhor: depois do fim do conflito, lembra o mundo que ignorar genocídios e guerras civis não faz com que estes fatos desapareçam da história.
Mas, ao invés de somente documentar a tragédia, o diretor Terry George, conhecido por seus filmes que focalizam os problemas na Irlanda, preferiu por retratar também a história de um homem. Com um “q” de A Lista de Schindler, Hotel Ruanda conta a história do hutu Paul Rusesabagina, casado com uma tutsi e gerente de um hotel de luxo, o Milles Collines. Sua profissão o rendeu amizades e confiança de pessoas importantes, como generais, que deviam favores à ele. Armado de sua diplomacia e suas relações, Paul transforma o Hotel em refúgio para quase 1300 pessoas, protegendo-as do conflito nas ruas. Focalizando mais no gerente, o filme traz para o espectador sensações próprias do ser humano, universalizando a história. Desespero, angustia, medo e desapontamento são alguns dos sentimentos que o filme desperta em um espectador atento e consciente.
O ponto forte da história é demonstrar, claramente, como Ruanda foi abandonada usando, para isso, estereótipos. Os generais, tanto o do exército hutu, quando o da ONU, tem seus perfis claros e o primeiro, inclusive, é uma representação dos vários generais que, apesar de fermentarem seu ódio contra os tutsis, amavam o dinheiro advindo do suborno. Com essa imagem, opor-se à eles é uma tarefa fácil, mas necessária para enfatizar a atitude do mundo. O que é mostrado, também, quando o único exército de intervenção apareceu, que foi para a retirada dos estrangeiros, deixando para trás aquela população para sofrer. A força de paz da ONU foi impedida pelos EUA no Conselho de Segurança, e o resultado foi um dos maiores genocídios africanos – em um dos menores países. Com isso na tela, fica difícil não se revoltar.
A atuação está excelente, descontando alguns papéis. Don Cheadle, na pele do próprio Paul, foi a escolha perfeita do diretor – que pagou em outros aspectos para tê-lo. Já Nick Nolte, como o general da ONU, fica um pouco deslocado, pois sua atuação realmente não trouxe sentimentos que não fossem ódio ao seu personagem. Faltou humanização. Mas em outros quesitos, também, o filme aponta como bom. A ausência de cenas de luta, como em outros filmes de guerra africana, traz o foco para os personagens. Deixando, assim, a ação de lado, a história passa a ser contada de uma forma muito melhor, sem apelar para a disputa.
A importância do filme reside, portando, na denúncia e no documento histórico. Como sucesso, teve problemas. Os estúdios americanos – importando-se mais uma vez com o dinheiro – só financiariam as gravações se o personagem principal fosse famoso. Para manter a coerência e deixar que a história flua da melhor forma, George teve de procurar apoio em outros países. Só então pode fazer seu filme com o ator que se revelaria o melhor para o papel (Don Cheadle) e outros famoso (como o francês Jean Reno), que trabalharam com baixos salários por simpatia. Hollywood pode não ter se agradado tanto do filme, mas com certeza o mundo e Ruanda agradece.
Por Jessica Grant C., 14/10/06
Fica Comigo Esta Noite
Um novo jeito de rir
- Direção: João Falcão
- Origem: Brasil
- Gênero: Comédia/Romance
- Duração: 73 minutos

O longa baseado na peça teatral de Flávio de Souza e Daniel Filho recebeu pouca atenção da imprensa e dos próprios espectadores. A propaganda, por conta de falta de recursos, foi pouca. A Globo, praticamente a empresa que manipula a opinião nacional sobre filmes, não apoiou, ainda que os atores trabalhassem ou já trabalharam em seus estúdios. Realmente, Fica Comigo Esta Noite não teve sorte. Mas se dependesse somente da qualidade do filme, das interpretações e do roteiro o sucesso teria sido muito maior.
A história é sobre um casal que, desde o início do namoro(que tornou-se rapidamente um casamento), vivem juntos uma bela relação. Sem contar com as viagens que ele, Edu(Vladimir Brichta), tem de fazer com sua banda. Tais viagens irritam e magoam sua esposa, Laura (Alinne Moraes), e acabam levando a um crise no casamento. Nessa situação Edu morre e acaba descobrindo um mundo, “inventado por ele”, que consiste no mundo dos mortos. Enquanto ele convence o Fantasma do Coração de Pedra(Gustavo Falcão) a o ajudar a voltar e resolver as coisas com Laura, ele mesmo o ajuda a reencontrar seu antigo amor, D. Mariana (Laura Cardoso e Clarice Falcão), que agora era um anjo. A história, que contada dessa forma parece simples, se desenrola em um romance diferente e em uma comédia original.
João Falcão, em seu segundo trabalho com cinema(o primeiro foi em outro filme pouco visto, “A Máquina”), demonstra criatividade e ousadia. As piadas são muito bem elaboradas, com pequenos detalhes que ao longo do filme se explicam e trazem mais graça à história. Junto com a boa direção, alia-se bons efeitos. Enquanto o mundo dos mortos se mistura com o dos vivos, com a maior naturalidade, a tecnologia coopera com diferentes ângulos de filmagens.
A atuação auxilia, e muito, em enfeitar a história. Alinne e Vladimir agem com tanta naturalidade que parecem realmente viver a história. Ele, porém, se destaca com sua típica interpretação e com sua voz, que canta a música tema, “Fica Comigo Esta Noite”, em versão de rock(um vídeo pode ser visto no You Tube.com). Já um ator que destaca-se é Gustavo Falcão. Na pele do Fantasma do Coração de Pedra, Gustavo mostra que sabe, sim, atuar de verdade. Um ator do tipo que pouco se vê na atualidade brasileira.
Enfim, as piadas leves, inteligentes e engraçadas fazem de Fica Comigo Esta Noite um ótimo filme para quem quer se divertir de forma diferente. Embora o roteiro seja previsível, o romance traz um toque sutil a uma história deliciosa e original em seus detalhes.
Por Jessica Grant C., 31/12/06

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